
A Raça Sorraia é autóctone do sul da Península Ibérica, mantida em estado semi-selvagem. São os primitivos antepassados de muitas outras raças, nomeadamente do Puro Sangue Lusitano, mas o seu reduzido número está longe de ser o suficiente para afastar a ameaça do perigo de extinção.
“Mais tarde, em 1920, andando à caça na região de Coruche, no baixo Sorraia, na propriedade chamada «Sesmaria» deparei com uma manada de uns 30 indivíduos, mais de metade dos quais eram baios claros, alguns ratos, muito zebrados e com aspecto geral absolutamente selvagem ou primitivo, como se fossem uma espécie de zebras ou hemiones.”
Dr. Ruy D’Andrade
Foi assim que o Dr. Ruy d’Andrade, zoólogo, anatomista, criador de cavalos e paleontologista português, descobriu este pequeno cavalo, que é o primeiro antepassado dos famosos cavalos Lusitanos e Andaluzes e também, directa e indirectamente, de muitos outros cavalos da Europa e da América, sendo esta a raça que contribuiu para os seus movimentos orgulhosos, a habilidade de flectir e projectar os membros anteriores bem como a força e equilíbrio nos membros posteriores.
História
Como descobriu os últimos sobreviventes desta subespécie em Portugal junto ao rio Sorraia, o Dr. Ruy d’Andrade baptizou-os com este nome. Foi também o responsável pela preservação desta raça: salvou a subespécie juntando um pequeno grupo de cavalos Sorraias numa sua propriedade na zona do Rio Sorraia, permitindo-lhes que se multiplicassem.
Os seus estudos convenceram-no que o cavalo Sorraia não representa apenas uma raça mas também o cavalo selvagem e autóctone do sul da Península Ibérica e que sobreviveu em estado selvagem até inícios do século XX.
Ao manter estes cavalos em estado semi-selvagem, o Dr. Ruy d’Andrade não criou uma nova raça mas preservou o que restava desta subespécie. Em vez de os criar selectivamente, não os alimentou nem administrou quaisquer suplementos, deixando que a natureza fosse o factor determinante da sua selecção. Como estes cavalos se desenvolveram sem se verificar nenhuma alteração da sua forma original (relativamente ao grupo junto inicialmente), pode-se assumir que eram de uma raça pura. Para reforçar esta ideia, encontra-se no Sorraia um tipo genético muito antigo, diferente de todos os outros cavalos ibéricos, bem como a sua constituição física absolutamente primitiva e o seu comportamento selvagem.
É também um facto que o cavalo Sorraia não tem história como cavalo doméstico.
Os estudos intensivos do Dr. Ruy d’Andrade documentaram o cavalo Sorraia como um descendente directo de uma das quatro formas primitivas dos cavalos selvagens, a partir das quais derivam todas as raças de cavalos domésticos do mundo. O cavalo Sorraia pertence, assim, à forma III: os cavalos primitivos da Península Ibérica.
Uma das evidências conclusivas da hipótese de o cavalo Sorraia ser o cavalo primitivo da Península Ibérica foi encontrada pelo Dr. Ruy d’Andrade nos dentes dos cavalos Sorraias: “Como é bem conhecido, os dentes estão entre os achados arqueológicos mais comuns. Permitem conclusões precisas observando o estado de evoluçãol do animal, e são os elementos de maior confiança para uma sistematização. […] Os dentes dos cavalos de puro-sangue Andaluz correspondem aos dos cavalos Sorraia.”
Algumas esculturas antigas, bem como as pinturas rupestres de cavalos que aparecem nas paredes da cueva La Pileta nas imediações de Ronda (Granada), no sul de Espanha, oficialmente datadas entre 30.000 e 20.000 a. C., já mostram as cabeças subconvexas e os pescoços arqueados, típicos dos cavalos Lusitanos, dos Andaluzes e do seu antepassado, o Sorraia.
Tudo isto sugere que os Sorraias que hoje conhecemos são a restante população de uma subespécie de cavalo verdadeiramente selvagem.
O número total de Sorraias existentes em todo o mundo não excedem as 200 cabeças, e todos eles descendem do grupo original de 7 fêmeas e 4 machos recolhidos pelo Dr. Ruy d’Andrade, pelo que a consanguinidade é uma ameaça eminente.
Hoje em dia podemos encontrar estes cavalos em criadores, maioritariamente privados, não só em Portugal mas também na Alemanha, França e Suíça. No entanto, é a família d’Andrade que conserva o maior número destes cavalos, mantendo-os em estado semi-selvagem, onde nascem, crescem e se reproduzem sem intervenção humana.
Apesar de todos os esforços, o número de Sorraias existente está longe de ser o suficiente para assegurar a sobrevivência do cavalo ibérico mais primitivo que encontramos nos nossos dias, pelo que ainda se considera uma raça em vias de extinção!
Raça
O Sorraia distingue-se pela sua capacidade de suportar climas extremos, particularmente os secos e quentes, sobrevivendo em zonas de pouco pasto sem por isso perder a saúde. A sua robustez, bem como a sua extraordinária flexibilidade vertical e lateral, reflectida na grande habilidade e agilidade com que projectam os membros anteriores e trabalham os membros posteriores, permitiram que o Sorraia fosse o cavalo ideal para o trabalho de campo.
De pernas muito compridas para ser considerado poney, o Sorraia é um cavalo de pequena estatura medindo, em média, 1,43m. Tem uma cabeça de longo perfil convexo, ou subconvexo, com os olhos posicionados bastante acima e as orelhas longas, mas não particularmente curvas.
A sua pelagem é baia ou rato, com uma máscara negra na cara, uma risca preta no dorso que liga as crinas à cauda (lista de mulo), orelhas também escurecidas, usualmente são riscados como as zebras nas pernas e também por vezes na espádua. As crinas e a cauda são negras raiadas de uma cor mais clara, tipicamente o branco. O Sorraia não tem marcas brancas e não aparenta características de sangue Oriental nem Norte Europeu.
Estes cavalos têm sido usados ao longo destes anos como montadas de campo para trabalhadores portugueses. Alguns foram treinados para o mais alto nível de dressage, outros engatados em competições de atrelagens.
Na Herdade Agolada de Baixo as éguas e alguns machos são mantidos em estado selvagem, sendo outros desbastados e montados ou engatados para passeios.
Links úteis
Associação Portuguesa do Cavalo Sorraia
Nos Trilhos dos Cavalos – passeios na natureza a eguadas Sorraias
