Historicamente, em Portugal, existiam duas formas de estar ligado à criação de cavalos.
Há um século, os cavalos eram criados principalmente para o trabalho. A maioria das coudelarias mantinha cavalos porque eram essenciais para as tarefas agrícolas e de transporte. Ainda há cinquenta anos era comum ver éguas a puxar trenós nos arrozais e garanhões utilizados por guardas florestais ou campinos nas planícies do Ribatejo.
A Coudelaria Oliveira e Sousa, fundada no final do século XIX, é uma verdadeira coudelaria ribatejana. Situada nas férteis terras da lezíria, teve, como muitas outras, origem na necessidade de animais de trabalho. Com o passar dos anos, esses mesmos cavalos encontraram novos propósitos — os cavalos de trabalho transformaram-se gradualmente em cavalos de sela, companheiros de lazer e de desporto.
Mesmo hoje, as éguas desta linhagem conservam a estrutura óssea sólida e a força que outrora as tornavam ideais para o trabalho agrícola. Selecionadas ao longo de gerações pela sua resiliência e resistência, fornecem uma base genética robusta ao Lusitano moderno, unindo substância e capacidade atlética.
Por outro lado, a Coudelaria D’Andrade, desde a sua origem, perseguiu um objetivo diferente: a valorização do cavalo como animal de beleza e inteligência. Guiada pelo conhecimento e visão do Dr. Ruy d’Andrade — mais tarde continuada pelo seu filho, o Eng. Fernando Sommer d’Andrade — procurou constantemente o aperfeiçoamento: no movimento, na estrutura óssea e no temperamento.
Hoje encontra-se na Coudelaria d’Andrade de Oliveira e Sousa, nascida da união destas duas famílias e que mantém cavalos de ambas as linhagens — linhagem D’Andrade e linhagem Oliveira e Sousa — bem como alguns exemplares que combinam as duas.
Através desta visão, a nossa coudelaria produz cavalos para a arte, o lazer e o desporto — particularmente para a Equitação de Trabalho, Dressage e outras disciplinas clássicas. Esta seleção natural moldou a nossa linhagem moderna de Lusitanos: um cavalo criado para o desempenho, a elegância e a parceria.
O Cavalo Andrade
O cavalo Andrade ocupa um lugar de destaque dentro da raça Lusitana — uma linha definida pelo conhecimento, pela disciplina e por uma busca constante de refinamento.
Desde o início, a Coudelaria Andrade foi fundada sobre a visão e a curiosidade intelectual. Foi criada graças à visão do Dr. Ruy d’Andrade, estudioso, naturalista e fervoroso defensor do aperfeiçoamento do cavalo português, e posteriormente guiada pelo Eng. Fernando Sommer d’Andrade, que trouxe precisão científica e planeamento de longo prazo ao programa de criação.
O que distingue o cavalo Andrade é a combinação deliberada entre rigor e arte.
Esta linha procura não só beleza e tipo, mas também excelência biomecânica — equilíbrio, elasticidade e força no movimento. O objetivo é um cavalo que una funcionalidade e expressão, capaz de se destacar na dressage clássica, na equitação de trabalho e nas formas mais elevadas da equitação tradicional.
A linhagem Andrade é reconhecida por produzir cavalos com um perfil distinto:
- conformação nobre e harmoniosa;
- andamentos poderosos e cadenciados;
- olhar vivo e inteligente;
- temperamento simultaneamente enérgico e generoso.
Muitos dos Lusitanos mais influentes de Portugal têm origem nesta coudelaria, que moldou os padrões modernos da raça e inspirou gerações de criadores.
Ainda assim, a linhagem Andrade manteve-se sempre fiel ao seu propósito: criar cavalos com morfologia e temperamento distintos, perfeitamente adaptados a trabalhar em harmonia com o cavaleiro.
Com a sua linhagem única, o sangue Andrade carrega uma responsabilidade — a preservação de um património genético e cultural.
Os seus cavalos são mais altos, de linhas mais angulosas e de consanguinidade mais próxima, mantendo o tipo distintivo que os tornou motivo de orgulho da tradição equestre lusitana.
Hoje, a Coudelaria d’Andrade de Oliveira e Sousa continua a representar o legado de uma criação criteriosa — onde o respeito pela tradição se equilibra com a inovação e onde o cavalo é visto não apenas como um animal, mas como uma expressão viva do património cultural e genético português.
Sustentabilidade
A sustentabilidade na criação de cavalos deve ser vista sob duas perspetivas — ambiental e social.
Do ponto de vista ecológico, temos a responsabilidade de gerir a terra — protegendo as linhas de água, mantendo pastagens diversificadas e promovendo ecossistemas naturais.
A gestão adequada dos pastos é utilizada para melhorar tanto a nutrição dos animais como a paisagem em si. Por exemplo, as éguas beneficiam de pastagens ricas em leguminosas com maior teor proteico, enquanto os machos em treino necessitam de pastagens mais ricas em energia. A fertilização equilibrada do solo e a redução do uso de azoto fazem parte de uma abordagem ambientalmente responsável — que liga a agronomia ao bem-estar animal.
Na nossa coudelaria, os cavalos são criados de forma extensiva e natural: livres, em campo aberto sob a sombra dos sobreiros, contribuindo para a sustentabilidade da paisagem rural.
Do ponto de vista social, a nossa coudelaria proporciona emprego significativo à população local. O cuidado dos cavalos, a gestão das pastagens e a manutenção das terras criam meios de subsistência estáveis, ajudando a sustentar as comunidades humanas desta região rural.
O bem-estar animal não é uma preocupação secundária — é um elemento central da sustentabilidade ambiental e social.
Sistema de Criação
As éguas são mantidas em regime de manada, geridas de forma extensiva e alimentando-se principalmente de pastagens. Durante os períodos de seca ou de escassez de alimento, a dieta pode ser suplementada manualmente.
As cobrições são cuidadosamente planeadas para que os poldros nasçam na primavera, permitindo às éguas beneficiar das pastagens mais nutritivas durante a amamentação.
Por volta dos 10 meses a um ano de idade (no inverno), os poldros são desmamados e separados das mães. Ficam estabulados durante alguns meses para se habituarem ao contacto humano. Nesta fase, são também marcados com o número de identificação e o ferro SA.
Após este período inicial, as poldras regressam à pastagem das éguas, enquanto os poldros são conduzidos para pastos destinados a machos jovens, onde permanecem até cerca dos três anos de idade.
Aos três anos, os machos são trazidos para as boxes para iniciar o trabalho, incluindo o desbaste e as primeiras montas. Damos grande importância a permitir que os poldros cresçam livremente, desenvolvendo músculo e beneficiando da nutrição natural dos pastos, sem que o trabalho precoce interfira no desenvolvimento do seu esqueleto.
É também por esta razão que os cavalos Andrade raramente são vistos a competir montados aos quatro anos — pois só recentemente iniciaram o seu treino formal.
Tradição e Inovação
Um dos maiores desafios da criação é manter a diversidade genética, preservando ao mesmo tempo o tipo único que define cada linha.
Um certo grau de consanguinidade é inevitável na população de cavalos Andrade, o que torna o conhecimento especializado essencial — escolher os garanhões certos, equilibrar conformação e funcionalidade e respeitar a identidade histórica.
Na nossa coudelaria, protegemos a linha genética Andrade e a sua autenticidade — que moldaram a raça Lusitana durante décadas — assegurando que a tradição guia a inovação na produção do cavalo Lusitano de hoje.
